Acho que ninguém que morreu por
causas naturais pensa como será sua última noite, posso dizer com certeza —
agora pairando sobre essa ponte — que esse pensamento nunca passou pela minha
cabeça.
O mais engraçado era que toda a dor havia
sumido, as mãos e até mesmo o rosto enrugado havia sumido. Então era certo que
ao morrer, a gente escolhe a idade que quer ter? Por que não simplesmente
aceitar as rugas? Há etarismo até depois da morte?! Que horror!
Sacudi a cabeça espantando esses
pensamentos tão mundanos, agora eu era parte do além… além do quê? De quem? Além
de mim? Já que meu corpo ficou enterrado em um caixão caríssimo — mas comprado
com muito amor pelos meus filhos —, e meu ser ou seja lá como se chame isso,
está aqui pairando nessa ponte.
Tentei tocá-la, mas vi como minhas
mãos translúcidas a atravessavam, então era isso? Agora eu viveria assim, sem
matéria em um mundo tão físico? Que ironia!
Mas eu me lembrava bem do abraço, do
toque e dos beijos daquele que um dia tinha sido o meu grande amor. Também do
carinho dos meus filhos, os cafunés em um domingo qualquer quando ficavam
dormidos no meu colo quando eram crianças. Ah, não há nada melhor que um abraço
de mãe ou melhor, de quem ocupou esse lugar na minha vida. O coração chega até
a aquecer, mas quê coração? Se agora eu era uma bola de plasma transparente!
Ok, bola é muito ofensivo, melhor dizer uma aura corpórea.
Passei a mão direita entre as flores
que envolviam a estrutura daquela ponte de madeira branca, durante o dia casais
costumavam passar por aqui em seus pedalinhos, muitos em forma de cisne. O Rosedal
ficava cheio de casais demonstrando o seu amor.
Talvez eu não estivesse aqui pela
minha última noite… que foi vendo alguma série enquanto comia por última vez
(sem saber) um pedaço de lasanha, receita da minha vó! O corpo bem acolhido, da
cintura para baixo, pelo cobertor que me acompanhou por anos a fio. Antes
disso, tinha recebido uma chamada de vídeo com a minha filha mais velha e meus
netinhos, que contavam como tinham ido bem na semana de provas da escola, e antes
do meio-dia, meu filho tinha me ligado para falar como as coisas em seu novo
negócio iam bem. Minha última noite havia sido como uma noite qualquer em um
dia qualquer, nada de especial, mas que ao mesmo tempo refletia tudo o que
havia colhido nesses anos. Amor.
Seria possível ainda sentir amor nesse corpo sem matéria? E o que é o “sentir” sem corpo senão um pensamento? Pensamento este que irradia por todo o corpo.
Eu já sabia o porquê estava aqui.
Porque foi naquela noite que ele fez o pedido, não, não foi o pedido de
casamento, mas o pedido para ser a sua namorada… aquela foi a última noite em
que seria só, foi a última noite do que seria o resto da minha vida.
E pairando aqui, tive muitas “últimas
noites” sem sequer perceber. A última noite como solteira, como noiva, como mãe
de filha única, como professora antes de me aposentar e até a última noite com
o meu grupo de amigas completo. Que aliás, espero encontrar todas elas lá do
outro lado, se é que há um outro lado! Talvez a gente se esbarre nas memórias
dessas “últimas noites” e se divirta como se realmente fosse a última vez.
— Clarinha, Clarinha… você ainda
continua pensando de mais sobre a vida? — Eu conhecia bem aquela voz.
— Ôh, meu velho. Agora eu estou é
pensando de mais sobre a morte.
Sorri indo ao seu encontro sabendo
que já não teria que preocupar-me com uma “última noite”.

