Um suspiro desesperançado
atravessa o meu corpo só de pensar nessa data, meu corpo tensiona e a memória
se sente tão vívida como antes.
9 de abril
de 2016, o ano da pior decisão da minha vida.
O fatídico
dia em que entrei naquele avião com três malas e uma bolsa grande, pensando que
seria tão fácil transportar a minha vida para outro país.
O fatídico
dia em que tive que deixar para trás família, amigos e tudo o que eu conhecia, a
angustia que vivia no meu peito naqueles últimos meses não era por acaso, o
simples fato de pensar em tudo ou de qualquer “gatilho” me fazia chorar
incontrolavelmente, uma boneca, uma notícia, um abraço… Cada despedida cortava
o meu coração de formas que nunca imaginei.
E sim, foi
a pior decisão da minha vida. Eu vim cegada por uma promessa de oportunidades,
porque me prometeram coisas que nunca tinha vivido antes, por supostas mudanças
que seriam para melhor e por finalmente ter a família que tanto quis.
Mas no
final, a ilusão durou pouco, já no primeiro dia soube que nada seria como eu
tinha imaginado e não porque as possibilidades que me disseram não existissem,
mas porque antes de soltar-me para ver o mundo, eu já estava traumatizada, dilacerada
e perdido parte de quem eu era.
Me ensinaram
coisas que não eram verdade, fiquei presa em uma bolha onde jamais me
aceitariam como eu era. Eu me olhava no espelho e não me reconhecia, roupas sem
vida, uma magreza cadavérica, cabelo liso e um sorriso morto, que no fundo, era
como eu queria estar.
Um montão
de problemas de saúde que ninguém acreditava, entre depressão, gastrite e
futuramente descobriria o SOP. Vozes que ecoavam dizendo que voltar ao Brasil
era um erro, que havia feito tanto e aguentado tanto só para voltar? E fui
ficando, fui me apagando e me agarrando secretamente àquilo que ainda me
mantinha viva, porque eu tinha esperanças de que as coisas não seriam para
sempre assim.
Eu escutava
comentários machistas, misóginos, estava presa em uma dinâmica familiar que não
entendia, injusta e sem sentido para mim. Me revirava só de pensar que teria
que viver isso para sempre e eu me sentia sozinha.
Nunca tinha
me sentido tão sozinha, julgada e desprezada em toda a minha vida. Nada o que
eu fazia estava certo, tudo o que eu era estava errado e por mais que eu me
esforçasse, nunca seria o suficiente. Estudava na faculdade, trabalhava de
domingo à domingo debaixo do sol, se quisesse ler o material da faculdade tinha
que ficar acordada até mais tarde ou acordar mais cedo, já que o resto do meu
tempo livre era para trabalhar ou cuidar dos afazeres da casa. Enquanto eles
dormiam, eu escrevia, gravava, editava, estudava… tentava recuperar o resto de
mim que ainda existia.
Estava mal
chorar.
Mas eu
tinha uma arma secreta que nem eu mesma sabia, pessoas, quando
finalmente consegui ter amigos e um namorado, entendi que ser quem eu era não
estava errado, eu podia ser eu mesma e estava tudo bem, e que muitas coisas que
me contaram não eram exatamente assim.
Quando me
mudei para a residência universitária, minha vida ganhou mais cor e com muito
receio, eu aprendi que já podia ser eu e que estava tudo bem, porque lá fora
existiam mais pessoas como eu, que a vida não era só sacrifício, que eu podia
chorar e estava tudo bem.
Foi quando
eu me reencontrei, ainda com muita dificuldade, um salário para sobreviver e
dias intermináveis indo para a faculdade. Mas finalmente estava livre, por mais
que os comentários continuassem, por mais que eu tivesse que fingir não ser
quem eu sou alguns fins de semana para depois voltar para a tranquilidade da
minha casa.
Como sempre
soube, eu amaria Buenos Aires, uma cidade calma em seu próprio caos, a arte que
jorra de cada canto possível, a natureza, os parques, os cafés para se
encontrar com os amigos, um ritmo de vida calmo e boêmio onde a alma de
escritores permeia. As vistas apaixonantes e um céu tão azul como nenhum outro.
E como me
apaixonei! Os olhares, as conversas profundas, os chamuyos… Amizades tão
intensas que se convertem em irmandade.
Toda minha
vida tive a sensação de que não pertencia ao Brasil, por diferentes motivos,
não sei se posso dizer que me encontrei em Buenos Aires, mas não trocaria tudo
isso aqui por São Paulo.
Depois de
todos esse anos pude me reencontrar, não para ser a mesma de 2016, mas sim
voltar à minha essência, onde a arte e as cores gritam mais forte, onde minha
personalidade peculiar nunca foi um problema.
E é aqui
onde temos o contraste: a Ayumi de 2016 que sempre foi aceita como era, que
acreditava que o céu era o limite, confiante, cheia de ideias e vontade de
empreender, sem traumas que a paralisavam e que não tinha nem ideia do que
estava por vir; e a Ayumi de 2026, com o coração um pouco mais apertado, alguns
traumas para a conta, finalmente em paz depois de entender tudo o que aconteceu
e de ter tirado as vendas que colocaram em seus olhos, é a Ayumi que finalmente
se reencontrou e sabe quem é, além de estar rodeada de amigos queridos e de uma
cidade tão cheia de vida que já não consegue se ver morando em outro lugar.
E sabe,
finalmente, que está tudo bem chorar.


















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