9 de abril de 2016

12.4.26

 

Um suspiro desesperançado atravessa o meu corpo só de pensar nessa data, meu corpo tensiona e a memória se sente tão vívida como antes.

9 de abril de 2016, o ano da pior decisão da minha vida.

O fatídico dia em que entrei naquele avião com três malas e uma bolsa grande, pensando que seria tão fácil transportar a minha vida para outro país.

O fatídico dia em que tive que deixar para trás família, amigos e tudo o que eu conhecia, a angustia que vivia no meu peito naqueles últimos meses não era por acaso, o simples fato de pensar em tudo ou de qualquer “gatilho” me fazia chorar incontrolavelmente, uma boneca, uma notícia, um abraço… Cada despedida cortava o meu coração de formas que nunca imaginei.

E sim, foi a pior decisão da minha vida. Eu vim cegada por uma promessa de oportunidades, porque me prometeram coisas que nunca tinha vivido antes, por supostas mudanças que seriam para melhor e por finalmente ter a família que tanto quis.

Mas no final, a ilusão durou pouco, já no primeiro dia soube que nada seria como eu tinha imaginado e não porque as possibilidades que me disseram não existissem, mas porque antes de soltar-me para ver o mundo, eu já estava traumatizada, dilacerada e perdido parte de quem eu era.

Me ensinaram coisas que não eram verdade, fiquei presa em uma bolha onde jamais me aceitariam como eu era. Eu me olhava no espelho e não me reconhecia, roupas sem vida, uma magreza cadavérica, cabelo liso e um sorriso morto, que no fundo, era como eu queria estar.

Um montão de problemas de saúde que ninguém acreditava, entre depressão, gastrite e futuramente descobriria o SOP. Vozes que ecoavam dizendo que voltar ao Brasil era um erro, que havia feito tanto e aguentado tanto só para voltar? E fui ficando, fui me apagando e me agarrando secretamente àquilo que ainda me mantinha viva, porque eu tinha esperanças de que as coisas não seriam para sempre assim.

Eu escutava comentários machistas, misóginos, estava presa em uma dinâmica familiar que não entendia, injusta e sem sentido para mim. Me revirava só de pensar que teria que viver isso para sempre e eu me sentia sozinha.

Nunca tinha me sentido tão sozinha, julgada e desprezada em toda a minha vida. Nada o que eu fazia estava certo, tudo o que eu era estava errado e por mais que eu me esforçasse, nunca seria o suficiente. Estudava na faculdade, trabalhava de domingo à domingo debaixo do sol, se quisesse ler o material da faculdade tinha que ficar acordada até mais tarde ou acordar mais cedo, já que o resto do meu tempo livre era para trabalhar ou cuidar dos afazeres da casa. Enquanto eles dormiam, eu escrevia, gravava, editava, estudava… tentava recuperar o resto de mim que ainda existia.

Estava mal chorar.  

Mas eu tinha uma arma secreta que nem eu mesma sabia, pessoas, quando finalmente consegui ter amigos e um namorado, entendi que ser quem eu era não estava errado, eu podia ser eu mesma e estava tudo bem, e que muitas coisas que me contaram não eram exatamente assim.

Quando me mudei para a residência universitária, minha vida ganhou mais cor e com muito receio, eu aprendi que já podia ser eu e que estava tudo bem, porque lá fora existiam mais pessoas como eu, que a vida não era só sacrifício, que eu podia chorar e estava tudo bem.

Foi quando eu me reencontrei, ainda com muita dificuldade, um salário para sobreviver e dias intermináveis indo para a faculdade. Mas finalmente estava livre, por mais que os comentários continuassem, por mais que eu tivesse que fingir não ser quem eu sou alguns fins de semana para depois voltar para a tranquilidade da minha casa.

Como sempre soube, eu amaria Buenos Aires, uma cidade calma em seu próprio caos, a arte que jorra de cada canto possível, a natureza, os parques, os cafés para se encontrar com os amigos, um ritmo de vida calmo e boêmio onde a alma de escritores permeia. As vistas apaixonantes e um céu tão azul como nenhum outro.

E como me apaixonei! Os olhares, as conversas profundas, os chamuyos… Amizades tão intensas que se convertem em irmandade.

Toda minha vida tive a sensação de que não pertencia ao Brasil, por diferentes motivos, não sei se posso dizer que me encontrei em Buenos Aires, mas não trocaria tudo isso aqui por São Paulo.

Depois de todos esse anos pude me reencontrar, não para ser a mesma de 2016, mas sim voltar à minha essência, onde a arte e as cores gritam mais forte, onde minha personalidade peculiar nunca foi um problema.

E é aqui onde temos o contraste: a Ayumi de 2016 que sempre foi aceita como era, que acreditava que o céu era o limite, confiante, cheia de ideias e vontade de empreender, sem traumas que a paralisavam e que não tinha nem ideia do que estava por vir; e a Ayumi de 2026, com o coração um pouco mais apertado, alguns traumas para a conta, finalmente em paz depois de entender tudo o que aconteceu e de ter tirado as vendas que colocaram em seus olhos, é a Ayumi que finalmente se reencontrou e sabe quem é, além de estar rodeada de amigos queridos e de uma cidade tão cheia de vida que já não consegue se ver morando em outro lugar.

E sabe, finalmente, que está tudo bem chorar.



  • Share:

Posts Relacionados

0 comments