Recomeço

24.1.26

 


Ato ou efeito de recomeçar, ato ou efeito de começar novamente, reinicio.


Todo ano novo era sempre a mesma coisa, essa sensação de esperança e renovação, como se mudar um número no calendário melhorasse tudo o que aconteceu nos últimos 365 dias. Mas eu via tudo como uma continuidade de fracasso atrás fracasso.


As telas jogadas e esquecidas no canto do quarto refletiam a desesperança, as bisnagas com as pontas tapadas de tinta acrílica seca delatando a falta de uso. Quando foi que deixei de pintar? Talvez entre um trabalho corporativo e outro.


Entre calls, meeting e follow-ups.


Um coração um pouco mais cansado, quem sabe até apagado por queixas e reclamações que só faziam o meu ser querer ficar longe dessa sensação nefasta, menos pensar e mais consumo automático de conteúdo em redes sociais, sem tomar nenhum tipo de decisão, um cérebro vazio que se enche sem muito esforço.


Esforço.


Escolher uma tela, cores, o que pintar e como pintar. Pensar.


Era algo que meu corpo cansado da rotina já não queria fazer, mas algo faltava na minha vida. Uma sensação que sabia bem, a tinta em meus dedos, o pincel empunhado, mil e uma possibilidades de serem pintadas na minha frente, criar algo único, mas meu corpo cansado relutava em mover-se.


Me aproximei da janela do quarto. A noite escura era iluminada pelas luzes dos carros, os postes de luz fracos, morar em uma avenida barulhenta era a mistura de paz e caos.


Quase como recomeçar, paz e caos intrínsecos a essa sensação de uma nova oportunidade.


Paz e caos, era o que sentia por dentro, paz de poder pagar as contas e caos borbulhando como em um caldeirão fervendo por não poder criar.


— Dane-se, Priscila! — disse a mim mesma.


Quase como um furacão, atravessei a sala e peguei a primeira tela que vi, a apoiei no cavalete empoeirado e fui pelas tintas.


Abstrato.


Era exatamente assim como se expressavam os meus sentimentos naquele momento. O caldeirão borbulhante finalmente explodiu em cores, pingos e rabiscos, marcando o meu recomeço apesar da vida corporativa que consumia a minha arte. 




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7 comments

  1. Perfeito texto! Morar em uma avenida barulhenta é a mistura de paz e caos mesmo!

    Como faz pra participar do Projeto Escrita Criativa? Qualquer escritor pode participar ou são apenas escritores selecionados?

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    1. Oi, Rose! Qualquer pessoa pode participar do Projeto Escrita Criativa, deixo aqui a lista dos temas de cada mês: https://www.projetoescritacriativa.com/2026/02/vivenciando-escrita-2026.html

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  2. No fim, a arte é quem nos salva, sempre!
    Que seja um bom ano tanto na ficção quanto na realidade! :)

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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  3. Lindo texto! Definiu bem a sensação de estar sendo consumida por algoritmos, ainda bem que temos a arte pra nos salvar

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    1. Obrigada Marina! ♥ Com certeza, a arte sempre nos salvará!

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