Ato ou
efeito de recomeçar, ato ou efeito de começar novamente, reinicio.
Todo
ano novo era sempre a mesma coisa, essa sensação de esperança e renovação, como
se mudar um número no calendário melhorasse tudo o que aconteceu nos últimos
365 dias. Mas eu via tudo como uma continuidade de fracasso atrás fracasso.
As
telas jogadas e esquecidas no canto do quarto refletiam a desesperança, as
bisnagas com as pontas tapadas de tinta acrílica seca delatando a falta de uso.
Quando foi que deixei de pintar? Talvez entre um trabalho corporativo e outro.
Entre calls, meeting e follow-ups.
Um coração
um pouco mais cansado, quem sabe até apagado por queixas e reclamações que só
faziam o meu ser querer ficar longe dessa sensação nefasta, menos pensar e mais
consumo automático de conteúdo em redes sociais, sem tomar nenhum tipo de
decisão, um cérebro vazio que se enche sem muito esforço.
Esforço.
Escolher
uma tela, cores, o que pintar e como pintar. Pensar.
Era
algo que meu corpo cansado da rotina já não queria fazer, mas algo faltava na
minha vida. Uma sensação que sabia bem, a tinta em meus dedos, o pincel
empunhado, mil e uma possibilidades de serem pintadas na minha frente, criar
algo único, mas meu corpo cansado relutava em mover-se.
Me
aproximei da janela do quarto. A noite escura era iluminada pelas luzes dos
carros, os postes de luz fracos, morar em uma avenida barulhenta era a mistura
de paz e caos.
Quase
como recomeçar, paz e caos intrínsecos a essa sensação de uma nova
oportunidade.
Paz e
caos, era o que sentia por dentro, paz de poder pagar as contas e caos borbulhando
como em um caldeirão fervendo por não poder criar.
— Dane-se,
Priscila! — disse a mim mesma.
Quase
como um furacão, atravessei a sala e peguei a primeira tela que vi, a apoiei no
cavalete empoeirado e fui pelas tintas.
Abstrato.
Era exatamente
assim como se expressavam os meus sentimentos naquele momento. O caldeirão borbulhante
finalmente explodiu em cores, pingos e rabiscos, marcando o meu recomeço apesar
da vida corporativa que consumia a minha arte.


7 comments
Perfeito texto! Morar em uma avenida barulhenta é a mistura de paz e caos mesmo!
ResponderExcluirComo faz pra participar do Projeto Escrita Criativa? Qualquer escritor pode participar ou são apenas escritores selecionados?
Oi, Rose! Qualquer pessoa pode participar do Projeto Escrita Criativa, deixo aqui a lista dos temas de cada mês: https://www.projetoescritacriativa.com/2026/02/vivenciando-escrita-2026.html
ExcluirNo fim, a arte é quem nos salva, sempre!
ResponderExcluirQue seja um bom ano tanto na ficção quanto na realidade! :)
Um beijo,
Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
Algumas Observações
Projeto Escrita Criativa
Quem nasceu para a arte sempre volta para ela ♥
ExcluirLindo texto! Definiu bem a sensação de estar sendo consumida por algoritmos, ainda bem que temos a arte pra nos salvar
ResponderExcluirObrigada Marina! ♥ Com certeza, a arte sempre nos salvará!
ExcluirQue vontade de recomeçar também...
ResponderExcluir